Vôlei Praia

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Vôlei forma campeões da vida nas areias do Rio de Janeiro

Anderson Melo e Michelle Carvalho usaram vôlei de praia como trampolim para transformarem suas realidades e se formarem educadores físicos

12/06/2020 12:48 Por: Ace Esportes e Entretenimento
No vôlei de alto rendimento, o maior título nem sempre vem dentro das quadras. O maior apoio nem sempre virá dos ginásios ou arenas lotadas. E como em toda a modalidade, o caminho para chegar entre os principais atletas do país é árduo e cheio de percalços. E por isso proporciona tantas histórias de superação. Histórias como as de Anderson Melo e Michelle Carvalho. Através do vôlei de praia, eles superaram a realidade dura na qual viviam, conseguiram um diploma de ensino superior e hoje atuam como professores, tentando transformar outras realidades através de seus exemplos e experiências.
 

Cria da comunidade Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Anderson credita a paixão pelo vôlei à mãe, uma apaixonada por esportes em geral, mas que possuía predileção por aquela modalidade que ascendeu nos anos 80. E uma herança como essa só poderia dar em uma relação extensa e intensa.

“Minha mãe sempre assistia de basquete a handebol, futsal, natação, mas o esporte preferido sempre foi o vôlei. Ela assistia desde a geração de prata, sempre acompanhava tudo. Comecei a praticar com 10 anos e apanhava porque queria ficar o dia todo jogando. Com 13 anos joguei uma competição e conheci um técnico, que estaria comigo por 16 anos e mudaria tudo na minha vida”, disse Anderson, lembrando sua primeira grande vitória.

“Com 14 anos comecei a jogar os Cariocas e ganhei bolsas em escolas particulares, um mundo muito distante da minha realidade. Vindo de uma comunidade, seria impossível estudar em colégios como os que estudei. Isso, sem dúvida, me proporcionou muitas coisas novas, positivas, além do estudo. Tive o privilégio de viajar de avião, para fora do Brasil, representando o país em um sul-americano de escolas. O vôlei mudou a minha perspectiva de vida de uma forma que eu não consigo imaginar como seria sem ele”.


Michelle Carvalho também mostrou a determinação necessária para ser uma atleta de alto rendimento desde cedo. Por iniciativa própria procurou seu primeiro clube e através de seu talento conseguiu fintar a falta de dinheiro para transformar sua vida.

“Comecei a jogar com 13 anos na escolinha do Madureira Esporte Clube. Peguei aquela ‘páginas amarelas’, procurei o número do clube, liguei e vi tudo que precisava para entrar na escolinha. Meus pais apoiaram tudo, mas a escolinha custava 20 reais e eu sabia que não tínhamos condições de pagar. Eu ficava muito constrangida quando o professor cobrava a mensalidade e fui conversar com ele. Disse que não tinha como pagar e recebi a primeira ajuda que tive ao longo da minha carreira. O professor, Frederico Santos, disse que eu não sairia por falta de pagamento. Ele viu algo de especial em mim e fez esse investimento”, contou Michelle, que também conseguiu bolsa em colégios particulares.

“Estudei em escolas particulares até a quarta série. Depois, meus pais não tiveram mais condições de pagar. Mas depois de começar a jogar, ganhei bolsas de estudo e consegui ter acesso a uma educação melhor”.


Como iniciou sua carreira nas quadras, Michelle precisou ainda enfrentar o desafio de migrar para a praia. Antes, porém, já havia se aproximado das areias da Zona Sul do Rio de Janeiro, quando trocou o Madureira pelo Flamengo.

“Um ano depois, decidi procurar outro clube. Eu precisava de desafios maiores, porque já tinha na minha cabeça que seria profissional. Liguei para o técnico do Flamengo, que foi meu técnico na seleção carioca, e pedi um teste.  Era o Jacques Araújo, que mandou eu arrumar minha documentação e ir. Eu fui e um horizonte novo se abriu para mim. Aí que o vôlei começou a fazer uma diferença muito grande na minha vida, com relação também ao convívio social. Dois anos depois, já no Botafogo e no final do juvenil, comecei a me interessar pela praia, até pela minha estatura. Joguei meu primeiro torneio, contra meninas experientes e fiquei em terceiro lugar. Isso me empolgou muito. Mas eu não imaginava como eu iria conseguir treinar na praia, morando longe e sem a estrutura que um clube oferece. Só consegui com a ajuda do Pelé da praia, um barraqueiro muito conhecido, que me treinava de graça. Eu pegava três conduções, treinava as 15h, um sol danado, mas estava lá, pisando na areia e aprendendo”.

Tanto para Anderson quanto para Michelle, o início promissor não garantiu um caminho sem obstáculos para o restante da carreira no vôlei de praia. Mas novamente a visão de futuro acabou fazendo a diferença, pavimentando um caminho fora das quadras logo cedo.

“As coisas foram acontecendo e fui conquistando bons resultados na base. Consegui ser campeão brasileiro sub-21 e sub-23. Através disso iniciei minha carreira como educador e, com uma bolsa, me formei aos 22, em licenciatura. Era hora de sair da base para o adulto e, apaixonado pelo vôlei, segui o sonho de ser profissional e vivi por quatro anos do vôlei. A gente vai jogando, vivendo, mas chegou um momento em que vi que eu não poderia viver somente do vôlei. A vida de atleta é uma incógnita. Então retomei meu outro sonho, que era ensinar vôlei. Voltei para a faculdade, fiz um bacharel e me formei educador físico ano passado (2019)”, explicou Anderson, revelando parte das dificuldades pelas quais passou.


 
“Foi muito marcante neste período quando decidi morar sozinho. E justamente a Michelle era quem estava sempre ao meu lado, me dando apoio e até ajuda financeira. Lembro que eu não tinha condição nenhuma e consegui chegar a uma semifinal em um Challenger. Quando sai de quadra, ela veio chorando me abraçar. A gente só pensava em ter dinheiro para carregar nosso vale transporte para o próximo mês. Ao mesmo tempo, tive a oportunidade, por exemplo, de jogar e vencer meu ídolo, o Ricardo. Enfrentá-lo foi maravilhoso, mas como foi muito difícil viver só do vôlei sempre procurei uma renda extra. Já fui até segurança de shopping e não conseguia tempo para treinar. Só a gente sabe o que passamos. A Michelle foi minha pessoa de confiança, de desabafo, de perrengue, de desespero, de tudo”.

Porto seguro para o amigo, Michelle também teve ao longo da carreira muita gente ajudando a realizar seu sonho de criança. Sempre que surgia alguma dificuldade, ela se reinventava e encontrava incentivadores importantes, que enxergavam sua vontade de vencer.

“Treinava com o Pelé e conheci o Vantuil, técnico campeão olímpico com a Sandra e a Jaque, em 96. Ele trabalhava no projeto de renovação da CBV e depois de um tempo consegui ser incluída. Foi um alívio grande para mim e para o meu pai. Recebia uma ajuda de custo de  500 reais, e era muito dinheiro, em 2002. Pagava minhas passagens para ir treinar e me ajudava a pagar umas despesas para ir para as etapas. Eu passava o dia todo na praia, pois não dava para ir e voltar para casa, então conheci todo mundo, inclusive a Isabel, que me chamou para treinar com a Carol Solberg, às 7h, pois ela estava vindo jogar na praia. Eu precisava acordar às 4h para ir treinar e recebi muita ajuda da Paula Barreto, mãe da Camila Adão, que muitas vezes me deixava ficar na casa dela para eu não precisar acordar tão cedo”, disse Michelle, que encontrou seu divisor de águas por acaso, nesses dias passados na praia de Ipanema.


“Fui convidada por um grupo de senhores para bater bola com eles. Me pagavam para eu jogar três vezes por semana. Saía do meu treino e ia jogar com eles. E ao lado dessa rede conheci o Ricardo Vento, técnico. Até ali eu era peladeira, mas ele me deu uma oportunidade. Foi a primeira vez que vi como era uma equipe profissional de vôlei de praia, com técnico, auxiliar, fisioterapeuta e alguém para montar a quadra. Ele era muito exigente e mudou minha maneira de pensar. Em nossa primeira etapa, não passamos do qualifying, mas na segunda, em nosso jogo para buscar a classificação, passamos, em Londrina. Estava um sol muito forte e tinha apenas uma única pessoa na arquibancada assistindo. Era justamente a Jaque, a minha inspiração. Eu tinha fotos dela colada na minha parede, na minha casa. Ela me conhecia da praia, sabia da minha história e tinha ficado ali para torcer. Parecia cena de filme! Meu ídolo vendo minha primeira entrada no circuito profissional”.

Os bons ventos continuaram a soprar para Michelle. E ela aproveitou o momento para voar ainda mais alto e realizar seu maior sonho, que era retribuir todo o apoio que recebeu dos pais no início da carreira. Agora era possível.

“Nesse torneio em Londrina recebi minha primeira premiação. Nem sabia como recebia e perguntei ao meu técnico quanto eu devia a ele. Mas ele não quis nenhum pagamento, que só aceitaria alguma coisa quando eu entrasse no ranking. E ele não aceitou várias outras também. Ficava me mandando comprar um pacote de Trakinas com o dinheiro. Era uma brincadeira, pois eu passava o dia todo na rua e, sem dinheiro para almoçar, comprava só o biscoito. Depois, consegui trilhar outro caminho. Saí do Brasil, consegui patrocínio do BB Seguros e isso fez toda a diferença. Consegui juntar dinheiro pela primeira vez para fazer o que eu sempre quis: construir a casa dos meus pais. Passamos de um barraco para uma casa de alvenaria. Através do vôlei, consegui proporcionar um pouco mais de conforto, em uma casa de dois quartos, para meus pais e minha irmã. Eu queria fazer isso por eles. Meu pai abriu mão de muita coisa para me ajudar durante todos os anos”.


Mas ainda faltava um último passo, que garantiria seu futuro ainda ligado ao vôlei, mas fora das competições. Era hora de buscar formação e mais uma vez um ‘parceiro’ serviu como trampolim para Michelle. O mesmo que ajudou a Anderson na sua primeira faculdade.

“Com 29 anos, estava desestimulada e perspectiva. Nesse momento, entrei na Evokar, uma ONG do Rio de Janeiro, que ajuda muita gente através da educação e do vôlei. E foi através deles que comecei na faculdade, com bolsa integral. Consegui estudar e jogar. Os resultados não eram os mesmos, mas eu sabia que era a hora. Sou a primeira mulher da minha família a ter ensino superior. Em 2017, comecei uma outra etapa, quando fui estagiar na escolinha da Maria Elisa. Eu treinava, fazia faculdade e ia para o estágio. No ano seguinte, decidi parar de jogar e até hoje ainda estamos juntos. Dou aula de vôlei, mas o que realmente me encanta é a oportunidade de promover bem estar e qualidade de vida para as pessoas. Me despedi da vida de atleta profissional numa boa. Tenho total consciência da importância que o esporte tem na minha vida. Através dele, conheci muitas pessoas, outras culturas, outros países, abri minha mente, consegui estudar em boas escolas e ingressar no ensino superior. É tudo na minha vida. A minha gratidão é imensa por tido a oportunidade de ter o esporte na minha vida desde cedo”, agradeceu Michelle.

Ainda na ativa, Anderson segue ao lado da amiga, também na escolinha da ex-jogadora Maria Elisa. Apesar de manter a chama de atleta acesa, ele sabe que o fim está próximo e o que foi um plano B um dia, já se tornou plano A.

“Estou na escolinha há mais de dois anos e foi uma das melhores decisões da minha vida. Porque consigo passar para as pessoas tudo o que aprendi desde os dez anos. Tive que aprender muito, inclusive a escutar mais, para passar o que aprendi com a minha experiência e na faculdade. O nível do Circuito Brasileiro é muito alto e se você não é top 4, vai ter dificuldade. Cansamos de ver campeões caindo nas etapas nas oitavas, nas quartas. Por isso, tive que andar sempre de mãos dadas com um plano B, que transformei em plano A. Hoje vivo muito mais para ser professor do que atleta. Apesar de continuar amando competir, precisei fazer escolhas. Diminui meu foco de atleta para me desenvolver como professor”, explicou Anderson, repleto de gratidão por tudo o que passou, incluindo as dificuldades.


“Me pergunto várias vezes o que seria de mim sem o vôlei. Me questiono se teria terminado meus estudos, se teria conhecido o Brasil, se teria feito viagens internacionais, se teria tido as minhas conquistas pessoais. Sem dúvida, não teria construído meu caráter da forma que construí. O vôlei fez a minha vida e eu sou muito grato por tudo que fizeram por mim, por quem me estendeu a mão e também por quem fechou portas”, encerrou.

Fotos: Arquivo pessoal, CBV

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