Vôlei Quadra

Mesmo avessa à exposição, Mara ocupa lugar de destaque e serve de inspiração para a nova geração

Com início de carreira difícil, meio de rede superou adversidades para chegar até a seleção brasileira e deixa dicas para meninas que esperam mudar de vida pelo esporte

24/06/2020 17:50 Por: Ace Esportes e Entretenimento
Superando muitos desafios no início de carreira, meio de rede Mara conseguiu chegar a seleção brasileira. (Crédito: FIVB)
Quando deu seus primeiros toques numa bola de voleibol, Mara nunca imaginou que chegaria tão longe e seria inspiração para muitas meninas, adolescentes como ela era naquela época. Quando saia de sua casa, aos 14 anos, ainda de madrugada, em Sabará, na Grande Belo Horizonte, para passar um dia todo de provações, entre treinos e escola, percorrendo quilômetros e mais quilômetros a pé, pois não tinha condições financeiras de custear transporte, a central já carregava com ela a determinação que a levaria a vestir a camisa da seleção brasileira. Os valores desta mineirinha, que de “inha” não tem nada, também são os mesmos daquela época. Uma preservação que resiste até aos fenômenos das mídias sociais, mas não a impede de ser exemplo.

Mantendo seu isolamento em Minas Gerais, com sua família, em virtude da pandemia do novo Coronavírus, Mara tem aproveitado para se reconectar ainda mais com suas origens. E não pensa tão cedo em aderir às mídias sociais, tão comuns hoje em dia. Sem nenhum perfil oficial, ela, mesmo sendo um ‘fenômeno de audiência’ sempre que aparece em algum conteúdo de alguma companheira de time ou seleção, prefere o ‘sossego’ do mundo real.


“Vejo que as pessoas se escondem muito nas redes sociais e, algumas vezes, mostram o que não são de verdade. Rede social é acompanhada por muitas pessoas e isso tem uma consequência. Nós, atletas, somos exemplos. As pessoas também só mostram um lado nas redes. Todos são felizes, alegres e a vida não é sempre assim. A minha prioridade de vida é outra. Gosto de estar com minha família, amigos, vizinhos e passar esse tempo com eles. Claro que tem um lado legal das redes, mas hoje ainda não é o momento”, revelou Mara.

Para superar este período difícil, a central tem buscado manter mente saudável em meio a tantas notícias ruins. O corpo ela tem trabalhado da maneira que é possível, em casa.

“É um momento diferente para todos nós. O mundo está passando por essa pandemia e tudo é muito novo. Nunca vivemos nada parecido e tem sido muito difícil para todos. É uma tristeza grande, com muitas pessoas morrendo, famílias perdendo seus entes queridos. Eu estou em casa, com minha família, e perto do sofrimento dessas pessoas, isso não é nada. É uma rotina diferente do que estou acostumada, mas tenho conseguido me adaptar da melhor maneira possível, fazendo exercícios em casa. Isso vai passar em algum momento e o mundo não será o mesmo. Temos que pensar mais no outro e ajudar da melhor forma possível”, disse a central.

 
E se hoje a cabeça de Mara está em ajudar, quando deu seus primeiros toques era ela quem era ajudada. Lembrança que serve hoje como combustível para alcançar mais vitórias em sua carreira e responsável por um sentimento grande de gratidão.

“Passei por muitas dificuldades no início da minha carreira para conseguir jogar vôlei. Logo no começo, entendi que teria que abrir mão de muitas coisas. As longas caminhadas eram diárias, em alguns momentos ficava sem me alimentar, andava no escuro, chegava em casa meia noite e saía novamente às quatro da manhã. Quando lembro minha história, tenho certeza que faria tudo novamente. Tive muitas pessoas que me ajudaram, como a Leonésia e o Delicélio, do Mackenzie. Eles acreditaram muito no meu potencial e moram no meu coração. Também lembro da Sheilla, que em um momento me deu um tênis e o uniforme dela. Achei aquilo sensacional e pensei que um dia gostaria de chegar numa seleção para jogar com ela. Aprendi que dificuldades aparecem, mas podem ser superadas. Temos sempre que acreditar que o esforço vale à pena”, afirmou Mara.


Negra, de origem humilde e tendo atingido o nível mais alto que um atleta de voleibol pode sonhar, vestindo a camisa da seleção brasileira, a meio de rede engrossa o coro da luta contra o racismo. Assim como espera um mundo com mais empatia pós-pandemia, ela torce pela evolução sobre esse tema tão atual.

“Deus fez os seres humanos e todos são iguais, independentemente da cor. Sou negra e muito feliz com a minha cor. Já vivi algumas situações de racismo, algo velado, nada direto, com as pessoas me olhando de uma forma diferente. Fico triste e não consigo entender o racismo. As pessoas deveriam olhar para o caráter e a atitude das pessoas. Para o negro se sobressair em alguma profissão, ele precisa fazer duas vezes mais, infelizmente. Acredito que o mundo vai melhorar e as pessoas vão evoluir nesse aspecto também”.

Falando em futuro, Mara, que se espelhou em grandes atletas quando começou, nas categorias de base do Mackenzie, do Minas e do Fluminense, deixa seu conselho para as jovens que, assim como ela, têm no vôlei uma oportunidade de transformar suas vidas.


“É muito legal ser uma referência para algumas meninas que estão começando no esporte. Com o voleibol, consegui dar uma condição de vida melhor para a minha família, então acredito que minha história pode mostrar que é possível alcançar objetivos. É preciso ter persistência e trabalho duro. Nada no esporte vem de mão beijada. Não se comparem com outras pessoas. Eu pensava: Porque eu treino tanto e os resultados não aparecem, porque eu não tenho dinheiro para comprar um salgado, porque eu tenho que vender rifa e outras pessoas não? E isso não leva a nada. Cada um tem uma história e trajetória. Temos que lutar. Se esforcem, é muito difícil, mas tudo tem seu tempo. Ter persistência e disciplina é fundamental”, aconselhou Mara.

Sobre o futuro nas quadras, nenhuma novidade ainda. Só a certeza de que tudo ficará bem e que o vôlei brasileiro voltará ainda mais forte. “A temporada de clubes acabou de uma forma inesperada, os Jogos Olímpicos foram adiados e todos os esportes no mundo foram afetados. Nós vamos conseguir superar as dificuldades. Teremos que nos cuidar ainda mais e isso será um incentivo para buscarmos defender ainda mais o nosso país”, finalizou.

Crédito fotos: FIVB e Orlando Bento/MTC

PATROCINADOR OFICIAL

PARCEIROS OFICIAIS


© Copyright 2020 Sou Mais Volei. Todos os direitos reservados.